Por Sandra Maura, CEO da TOPMIND

Metaverso. Nos últimos meses, esse tem sido o tema da vez dentro dos mais diversos mercados. Do Varejo à Indústria, o que não falta são análises sobre o que poderá significar a criação de um ou de vários mundos novos, com inúmeras possibilidades a serem desbravadas. Mas além de pensarmos em universos paralelos do futuro, parece ser igualmente importante refletirmos a respeito de uma questão para o agora: qual é a realidade que queremos transportar para esses ambientes virtuais? E para quem?

Antes de responder essas e outras perguntas, porém, é interessante notar o que vem a ser o conceito desses “múltiplos universos” em si. Segundo o Gartner, Metaverso é um espaço virtual, coletivo e compartilhado, criado pela convergência da realidade física e digital virtualmente aprimorada. Em outras palavras, é um ambiente dedicado a proporcionar experiências imersivas às pessoas, com perspectivas que liguem o digital e o real de forma ampla e completa.

Isso significa dizer que há duas partes importantes ao falarmos sobre esta inovação: a primeira é que esse ambiente virtual precisa ser coletivo, feito para as pessoas; a segunda é o desenvolvimento das experiências imersivas que atenderão as demandas dos usuários (clientes, colaboradores, pacientes etc.). Ou seja, não adianta pensarmos na oferta das experiências sem antes garantirmos que este universo consiga ser realmente inclusivo e centrado nos diferentes públicos que usarão as soluções.

Estamos falando, desse modo, da capacidade de incentivar e desenvolver a Diversidade e Inclusão neste processo, permitindo que cada vez mais vozes sejam ouvidas no processo diário das organizações (e dos times de pesquisa e inovação). E que fique claro: mais do que um tema de justiça social, a capacidade de abrigar mais gente também é importante para as empresas do ponto de vista financeiro e operacional, uma vez que a abertura à diversidade certamente amplia a capacidade de se buscar ideias realmente inovadoras e, portanto, possivelmente mais rentáveis às companhias. Em um contexto pautado pela mobilidade e conexão, parece ser claro que que não há mais espaço para qualquer disrupção sem a inclusão das pessoas.

Apenas como exemplo, podemos destacar o que significa a participação feminina nas empresas. De acordo com uma recente pesquisa da consultoria McKinsey, as empresas com mais mulheres na liderança conseguem ter resultados até 48% melhores que seus concorrentes de mercado, além de alcançarem até 70% a mais de faturamento. Esses números não vêm apenas pela presença das mulheres, evidentemente. A grande questão é a capacidade de complementar, ponderar e discutir ideias sob prismas diferentes. É a soma que gera o resultado.

No entanto, apesar das análises indicando os benefícios da diversidade cultural e de identidades dentro das equipes e conselhos, a verdade é que ainda há uma forte disparidade na presença do gênero feminino nos boards de comando das empresas de um modo geral. No caso da área de Tecnologia da Informação, especificamente, esse é um ponto latente e bastante visível. Segundo levantamento da Boston Consulting Group, apenas 9% das vagas de CEO e 25% da força de trabalho na área de tecnologia da informação (TI) são ocupadas por mulheres. Outros grupos, do mesmo modo, ainda engatinham para conseguir espaço.

É importante rever esse cenário e abrir condições para que a pluralidade possa crescer dentro das companhias - especialmente em um campo como a Tecnologia, que permeia nossa vida atualmente. Somente assim poderemos ser capazes de escrever códigos, algoritmos e sistemas sem preconceito e sem os vieses culturais que trazemos e que somos incapazes de descobrir sem a real parceria com os outros.

Para fazer isso, é preciso deixar os estigmas de lado e perceber que o mundo mudou. Temos de oferecer conhecimento, conteúdo e apoio para a formação de jovens, realocação de profissionais em transição de carreira e garantir que o empreendedorismo seja incentivado, com as ideias e soluções que um ambiente acolhedor e verdadeiramente orientado ao aprimoramento contínuo pode nos oferecer.

Isso, certamente, inclui a participação ativa das empresas. Aqui, aliás, temos uma boa notícia: de acordo com um estudo elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU), 87% das empresas têm o desejo de serem reconhecidas por valorizar a diversidade. Por outro lado, a mesma pesquisa também indica que a grande parte dessas companhias ainda enfrenta desafios para promover a real inclusão, preparar o ambiente de trabalho com ações para acolher, reter e desenvolver talentos de outros grupos.

Estamos caminhando. Mas ainda estamos longe do lugar em que precisamos chegar. Nesse sentido, ser uma mulher na liderança de uma companhia de inovação e tecnologia me ajuda a entender isso: nos últimos 20 anos, tivemos grandes avanços para reduzir a sub-representação feminina e para começar a trazer outras ideias e identidades para dentro das operações.

Temos de ter consciência de nossos papeis para estimular que os talentos tenham suas chances de ajudar a construir um mundo melhor. Talvez assim possamos aproveitar mais as oportunidades de conceitos como o Metaverso, por exemplo. Sem isso, estaremos apenas levando as incongruências e dilemas de nosso mundo real para dentro dos universos paralelos. E o que isso significa? Temos de mudar agora, também, por um Metaverso melhor.